A crise na lingua
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A minha azeitona preta
Azeitona madurinha
Nos ramos fazendo enfeite
Vais deixar de ser pretinha
No lagar feita em azeite.
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Mas na rama a baloiçar
Não te tornes descuidada
Porque podes ir findar
No bico da passarada.
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Resistes ao Inverno frio
E ao rigor dos temporais,
Não queiras perder o pio,
Escorraça esses pardais.
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Dentro em breve o lavrador
Te prenderá em seus braços
E vais seguir com fervor
O caminho dos seus passos.
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No lagar vais ser moída
Com a arte portuguesa,
Transformada em bebida
Para o bem da nossa mesa.
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Vais sofrer outra faceta
Nesta tua caminhada
Deixarás de ser preta
Para vires a ser dourada.
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Num trabalho complexo
Feito em ti com deleite
Mudas de nome e de sexo
E passarás a ser azeite.
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Rama Lyon
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Um manto feito de neve
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Com talento e habilidade
Certo pintor de mão leve
Coloriu minha cidade
Com farrapinhos de neve.
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Eu não sei quem foi o santo
Agindo tão bem assim,
Que da neve fez um manto
E cobriu o meu jardim.
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As árvores estão vestidas
Com o branco imaculado
Como noivas conduzidas
Pelo braço do namorado.
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Voam no ar os passarinhos
Não sabendo o que fazer
Cheios de frio, coitadinhos,
Sem ver nada p’ra comer.
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Aguardam, espreitando,
Na neve que cobre o chão
Alguém que lhes vá deitando
Alguns bocados de pão.
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Este frio que vai crescendo
No meio da branca beleza
Põe a cidade tremendo
Com o rigor da Natureza.
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Mas em breve meu jardim
Irá seu manto despir,
E as plantas vão enfim
De novo poder florir.
Rama Lyon
Se me queres conhecer
Gosto em clima ameno morar
Mas tambem de terra fria posso ser
Sempre contente a saltar
Tu aprendes a mastigar
Eu aprendi a roer
Tenho presas para sementes agarrar
Para bolotas comer
Tenho outros pratos prediletos
Gosto de outras coisas comer
Gosto de frutos e insectos
Que me dão força para crescer
Tu dormes numa caminha
Eu a toca das arvores escolhi
Para mim é boa quentinha
Outra não conheci
Ás vezes sem querer
Planto arvores uma delas a Jarivá
Ao sementes esconder
Germinam e para comer já não dá
Com folhas e galhos construo ninhos
Para da chuva e do vento
Abrigar os meus três ou dez filhinhos
Com ternura e alento
Não sou muito alto
Mas tenho o rabo comprido
De um a cinco metros salto
Sem nunca me ter ferido
A brincar sou feliz
A viver como sou
Sou o esquilo que te diz
Agarra a vida que te agarrou!
Fernanda Rocha Mesquita
Para a autora deste tão belo poema, o meu melhor prémio: um esquilo d'ouro
Amar é sentir que música é a tua voz
É beijar as estrelas quando adormeço no teu peito
Amar é sentir o mundo cantar quando estamos sós
É esconder meu sorriso envergonhado sem geito
Amar é esquecer o dia que passou
É libertar os sentimentos presos na tua ausência
É sentir que a saudade de mim te marcou
Que sou de todos os perfumes a tua essência
O amor não cumpre tarefas convencionais
Oferece gestos sentidos de amor e carinho
Amar é um não cansar, é um sempre mais
É a certeza de não sentir sózinho
Fernanda Rocha Mesquita
Ano dois mil e dez
Meia-noite e o temporal
Varre a rua a nossos pés,
Vai chegando a Portugal
Este ano dois mil e dez.
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Não importa a agitação
Desta forte tempestade,
Porque o nosso coração
Bate louco d’ansiedade.
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O mau tempo não impede
Algarvio ou transmontano
Que na rua hoje se quede
Sem saudar o novo ano.
E até mesmo na Madeira
Nos Açores e Porto Santo
Reina grande brincadeira
Nos braços de puro encanto.
Seja longa a f’licidade
Que esta noite hoje nos dá,
Num mar de tranquilidade
Da Austrália ao Canadá.
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Seja um ano de alegria
De paz franca e cordial,
Espalhando essa energia
Na atmosfera mundial.
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E que Deus nos dê a sorte
Nesta vida de esperança
De acabar o vento forte
E ser um Ano de bonança.
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Rama Lyon
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